A desfronteirização das organizações
Este é um momento muito especial em nossa história, em que está em curso uma total reconfiguração dos limites de uma organização, das sociedades e dos governos.
O que em um passado relativamente recente parecia ser uma utopia, na qual cadeias completas de valor poderiam ser integradas em processos que transcendem as organizações, agora está se tornando possível, em decorrência, especialmente, das novas arquiteturas abertas e orientadas a serviços (SOA – Servive Oriented Architectures).
Nós mal estamos começando a entrar neste novo mundo de novos relacionamentos, possibilidades e oportunidades!
Poderíamos dizer que estamos entrando em uma nova era, a da www (world wide web), mas não somente no sentido tradicional que conhecemos, isto é, a internet, e sim em uma nova rede mundial de organizações inter-relacionadas, em que perde o sentido a definição de fronteiras ou limites organizacionais.
Se isto é verdade para uma companhia privada, é ainda mais para organismos de governo, por que neste as múltiplas relações cruzadas são ainda mais amplas, e se um governo fracassa em operar com agilidade e eficiência, o impacto é muito mais profundo.
Nós mal estamos começando a entrar neste novo mundo de novos relacionamentos, possibilidades e oportunidades!
Se isto é verdade para uma companhia privada, é ainda mais para organismos de governo, por que neste as múltiplas relações cruzadas são ainda mais amplas, e se um governo fracassa em operar com agilidade e eficiência, o impacto é muito mais profundo.
Nesta nova “onda”, mesmo o conceito tradicional de governo eletrônico fica desatualizado, pois perde o sentido a separação do que é um processo de governo como um todo e o que é governo eletrônico. Tudo são processos, muito abrangentes e integrados, oferecendo serviços.
Também a questão de inclusão digital - ou mais propriamente, a divisão digital - passa a ter um novo significado, pois já não basta mais ter acesso a informações e conhecimentos proporcionados pela era da internet, devendo fazer parte das ações proativas do governo e da sociedade a preparação para novas formas de trabalhar e interagir.
Por isto, cremos que devamos entrar em um novo degrau dos programas de inclusão digital, que podemos chamar de Transformação Digital, no qual muitos outros aspectos precisarão ser inseridos, além do acesso digital facilitado.
Por que inclusão digital é pouco
Exclusão digital é apenas uma parte da exclusão econômica que advirá para nações que não se prepararem para essa nova arquitetura de relacionamentos e fronteiras desfeitas. Programas de inclusão digital precisarão se transformar em programas de capacitação para a vida em uma sociedade muito diferente daquela que conhecíamos até há alguns anos atrás.
Ainda muito pouco preparamos nossos jovens e adultos em suas primeiras fases da vida profissional para a multiplicidade de possibilidades que a atitude empreendedora pode proporcionar, ao se explorarem os recursos do novo mundo digital e, ao mesmo tempo, não os alertamos a respeito dos riscos que correm ao estarem pouco presentes nesse novo ambiente de vida e negócios.
Quanto efetivamente nossas crianças e jovens estão sendo preparados para o fato de que não há como fugir da globalização, e que nesse mundo globalizado as perspectivas, oportunidades e riscos são diferentes? Em escolas de administração e direito, para exemplificar, os programas ainda têm o mesmo perfil que era utilizado na época da economia tradicional, preparando administradores e advogados para um mundo que, aos poucos, está deixando de existir.
Obviamente, com o tempo, tudo vai sendo percebido e vamos nos adaptando. Ocorre que, desde já há muitos anos, nossa capacidade de absorção do novo tem sido muito menor que a velocidade das inovações, e o que se percebe, ao longo do tempo, é que os riscos de distanciamento entre países ricos/dominantes e países pobres/dominados estão aumentando. Mesmo com esforços enormes como os que têm sido feitos no Brasil, esse risco é grande, porque estamos repetindo ainda as mesmas ações, que têm sido de facilitar o acesso aos recursos tecnológicos, mas pouco preparar para o que esse acesso pode proporcionar ou para como atuar no novo ambiente econômico.
Parece uma luta inglória, porque de um lado vemos inúmeros programas e projetos governamentais sendo conduzidos visando reduzir a exclusão digital, com a expectativa de que estas ações colaborem, como efetivamente o fazem, para reduzir a exclusão social. Mas os passos dados têm sido insuficientes, principalmente em termos qualitativos, para, ao menos, manter a distância que existe hoje entre nosso potencial e o de países ricos em termos de realizações no novo mundo econômico globalizado/digital.
A Índia é um excelente exemplo, pois com um grau de exclusão digital ainda maior que o do Brasil, se destaca no uso dos recursos que tem, e com isto vem alavancando um nível de proficiência “cibernética” invejado por muitos países.
Por outro lado, as limitações de acesso que as tecnologias mais tradicionais estabelecem, tais como recursos computacionais necessários ainda caros -, relativamente à renda média do cidadão brasileiro -, meios de comunicação com capacidades restritas e preços elevados, poderão ser suplantadas por meio de novos dispositivos, tais como a TV Digital, a cidade digital, as novas tecnologias de acesso a conhecimentos e seu uso, as enormes facilidades para a integração de negócios em nível mundial.
Hoje um pequeno comércio pode, sem muita dificuldade, se integrar a grandes redes operadoras de negócios com abrangência mundial, o que viabiliza, ao lado dos riscos crescentes, oportunidades ainda maiores para grandes e descontínuos saltos positivos. Esse tipo de “inclusão”, isto é, o conhecimento das novas possibilidades e de como explorá-las, precisa ser desenvolvido em nosso país – não só a básica inclusão do acesso aos recursos computacionais e de comunicações, isto é pouco –, e só isto vai alargar a distância que nos separa dos países que mais estão crescendo no uso das novas tecnologias.
A Índia é um excelente exemplo, pois com um grau de exclusão digital ainda maior que o do Brasil, se destaca no uso dos recursos que tem, e com isto vem alavancando um nível de proficiência “cibernética” invejado por muitos países. Do que agora a Índia está plantando, deverá surgir uma potência mundial que estenderá os benefícios decorrentes para a maior parte de sua população. Foi isto o que ocorreu nas economias industriais mais desenvolvidas no início daquele processo, já há mais de cem anos.
Analisando sob um outro prisma, é fundamental que sejam criados “degraus de inclusão” para a nova economia, e que cada um desses degraus seja provido dos recursos, programas e projetos capazes de provocar as transformações necessárias.
As gerações de tecnologias da informação e comunicação e
seu papel no governo
Um dos aspectos mais significativos na análise do atraso do país em relação à modernização dos processos de governo está na ainda incipiente adoção de novas tecnologias nesses processos.
A figura abaixo ilustra e indica algumas das grandes transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas, configurando o que, para efeito desta análise, denominamos gerações de tecnologias da informação:

Gerações de tecnologias da informação
As gerações passadas de Tecnologia da Informação e Comunicação
A primeira geração de T.I. (1950s – 1970s) remonta aos primórdios da “computação”, e dela se originaram os sistemas empresariais baseados em mainframes, com estruturas monolíticas; a segunda geração (1980s) trouxe os microcomputadores e as redes locais, provocando transformações importantes em como a tecnologia de informação e comunicação passou a ser utilizada; a terceira geração (1990s) tem como principais eventos o uso disseminado da internet e, em decorrência, um grande impacto sobre as possibilidades de conectividade mundial, sendo, também, dessa mesma época, os sistemas integrados (ERPs, CRMs, etc.).
A 4ª. geração e as grandes transformações em diante
Novas arquiteturas, ainda mais independentes e flexíveis, têm sido conseguidas utilizando-se novas tecnologias do mundo web, em que quaisquer componentes de hardware ou software poderão ser acoplados à arquitetura integrada como serviços web. Um webservice é uma aplicação componentizada, que possui uma interface de comunicação aberta, facilitando a integração das aplicações. O webservice utiliza a internet como meio de comunicação.
A quarta geração foi provocada, como principal advento, pela orientação a processos e componentes baseados na web (webservices); do ponto de vista prático, e sem entrar em detalhes técnicos aqui desnecessários, resultará em uma completa reconfiguração na forma com a qual as organizações vão operar e interagir – tudo o que se opera (sistemas de informações, automações, etc.) se tornará um serviço, disponibilizado e acessado na web (por isto o nome webservice), em novas plataformas tecnológicas que trarão um impacto ainda maior que o que a Internet, em sua primeira geração que está se encerrando, trouxe.
As organizações, especialmente as de governo, situam-se em uma ambiente onde muitas interações são necessárias; todas têm obrigatoriamente relações externas, e este relacionamento é o motivo da existência das mesmas. Então, é sempre desejável que se criem mecanismos para que isto aconteça da melhor forma possível, com velocidade e segurança.
Um serviço ao cidadão, um módulo elementar de um sistema de informação, o acesso e uso de aparelhos eletrodomésticos, operação dos componentes de um automóvel, a integração de máquinas em uma fábrica, a interação entre organismos de governo, enfim, qualquer componente operacional poderá ser construído como um serviço acessado e operado pela internet, isto é, um webservice.
As organizações, especialmente as de governo, situam-se em uma ambiente onde muitas interações são necessárias; todas têm obrigatoriamente relações externas, e este relacionamento é o motivo da existência das mesmas. Então, é sempre desejável que se criem mecanismos para que isto aconteça da melhor forma possível, com velocidade e segurança. É aqui que entra a importância das novas plataformas tecnológicas, que deverão, inclusive, alterar conceitos de governo eletrônico e promover mudanças profundas no uso comum, pelo cidadão, das tecnologias de informação e comunicação.
Demanda por níveis de excelência no atendimento à sociedade:
o papel decisivo das TICs
A crescente exigência por parte da sociedade, pela busca constante da excelência na administração pública, demanda ações de modernização que objetivam atender aos anseios de uma comunidade que prestigia e valoriza a eficiente administração dos recursos públicos.
Alcançar um estado de eficiência, agilidade, transparência e otimização dos recursos é um dos principais desafios que qualquer país hoje precisa enfrentar, até para que as organizações privadas possam competir internacionalmente e operar de forma ágil nos mercados locais.
Alcançar um estado de eficiência, agilidade, transparência e otimização dos recursos é um dos principais desafios que qualquer país hoje precisa enfrentar, até para que as organizações privadas possam competir internacionalmente e operar de forma ágil nos mercados locais.
Esse desafio passa pela adequada adoção de soluções relacionadas ao universo da tecnologia da informação, assim como a conseqüente capacitação dos quadros envolvidos na operacionalização dos processos em questão na adoção de novas soluções de alto impacto.
Isto exige a absorção, o desenvolvimento e a implementação de novas técnicas e processos administrativos e de gestão, suportados por novas tecnologias, demandadas em níveis ainda mais altos que nas empresas privadas; passa a ser fundamental equipar o governo como um parque de tecnologia da informação capaz de oferecer a absoluta integração no universo de informações, a simplificação de procedimentos e a eliminação da dependência de manipular informações por meios físicos (papel).
As enormes transformações provocadas pelo mundo aberto de informações e sistemas, calcados na tecnologia da internet, trazem imensas oportunidades para que as estruturas governamentais se tornem muito mais eficazes e orientadas ao atendimento à sociedade. Novas tecnologias podem ser adotadas, com um salto sobre as gerações tecnológicas passadas, podendo promover uma ampla reformulação de processos em governo. |